Identidade negra e periferia inspiram disco A Rotina do Pombo, de Thiago Elniño Por Eduardo Ribas, editor do blog Per Raps

Hoje em dia, nem todo mundo que gosta de rap grita “hooo”. Até porque os raps por vezes pedem “laiá laiá”, sem questionamentos ou transgressões, no máximo, ousam deixar o refrão de fora. Mas se para alguns o rap abandonou sua raiz, seja musical ou filosófica, o mesmo não se deu com Thiago Elniño. Morador de Volta Redonda, cidade localizada a cerca de 100 km da capital do Rio de Janeiro, o MC vem desde 2008 lançando material relevante, sempre preocupado com a mensagem em suas letras e sem deixar de explorar diferentes sonoridades. Em A Rotina do Pombo, seu mais recente trabalho, Elniño traz menos frases de efeito e mais conversa com o ouvinte, quase como uma voz da consciência, que aconselha e dá bronca quando preciso. No papel principal, o cidadão comum que luta pela sobrevivência e sua felicidade, preso a uma rotina quase sem lógica, que põe em risco sua própria vida. “O disco descreve uma cidade fictícia que mistura os centros das cidades de São Paulo, Belo Horizonte, Rio e Volta Redonda, então é normal referências geográficas de lugares diferentes na mesma música”, reflete o artista. Já no primeiro single, “Padagoginga”, uma referência ao rap clássico com beat marcante e letra de impacto. Elniño revela seu outro lado, de educador popular e pedagogo, apresentando a perspectiva racial do sistema educacional, que poucas vezes é levada em consideração, valorizando a história e a figura do negro, muito mais como herói e bem menos como vilão. Participam da faixa o habilidoso MC carioca Sant e KMKZ, que empresta sua voz marcante ao refrão, potencializando a força da música. Trazendo uma musicalidade mais orgânica que a de costume no gênero, A Rotina do Pombo se apoia em ritmos derivados do reggae jamaicano, como em “Condado dos Surdos”, parceria com integrantes da banda Medulla (Raony e Keops) que questiona a rotina exaustiva e degradante imposta à maioria das pessoas. Reforçando o time de participações, Rincon Sapiência pergunta “Quem é o Inimigo” junto da jovem MC mineira, Tamara Franklin, em uma das faixas em que Elniño mostra que também tem habilidade para segurar o refrão. No total, são 15 faixas com participações de MCs todos negros, que renovam a esperança do fã de rap ao mostrar a figura do MC de volta ao seu papel questionador e honrando a tradição da passagem de conhecimento, nesse caso, promovendo um importante mergulho na cultura negra. Após o disco ser lançado, uma galeria virtual será lançada reunindo trabalhos de diversos artistas negros, de diferentes linguagens, fazendo cada um a sua leitura do conceito do disco.

Sobre Thiago Elniño

Nascido Thiago Miranda e envolvido com a música desde os 15 anos de idade, o MC escolheu o novo sobrenome pela simbologia da alteração de temperamento drástica de um sujeito, hora tranquilo, hora extremamente agressivo no palco quando passou a participar de batalhas de MCs. Sua carreira foi iniciada pela inspiração em seus conterrâneos Marcelo Yuca, Cartola, além de Gonzaguinha, Fela Kuti e o Xis, sua maior influência no rap, principalmente pela sonoridade moderna e a sofisticação ao descrever a periferia sem deixar de soar parte dela. Começou a escrever sua própria história com o primeiro EP, Prólogo, em 2008, e depois Cavalos de Briga, de 2012, que apresentavam letras bem pé no chão, mescladas a uma fusão de beats tradicionais do rap com a sonoridade orgânica dos instrumentos de integrantes da banda Amplexos.

Veio então o primeiro single de impacto, “Amigo Branco” (https://youtu.be/bh9FopAu-vk), que ganhou clipe dirigido pelo diretor Rabú Gonzalez, que já fez clipes de Edi Rock (Racionais MC’s) e a cantora Ludmilla, e logo depois a mixtape Fundamento, ambos em 2013. Seu momento mais marcante veio com o EP Filho de Um Deus que Dança (2016), produzido por Nave, que já trabalhou com Marcelo D2 e Karol Conka, culminando no clipe de “Diáspora”, até então seu ponto mais alto da carreira. Antes de concretizar A Rotina do Pombo, Thiago Elniño se afastou da música e buscou sua espiritualidade, se aproximando ainda mais de suas raízes africanas e refletindo isso em suas letras e melodias.